Por que o Teiú fica mais quente na hora da 'paquera'? Pesquisa encontra dado inédito

  • 07/02/2026
(Foto: Reprodução)
Por que o Teiú fica mais quente na hora da 'paquera'? Pesquisa encontra dado inédito Nas manhãs ensolaradas do interior paulista, é comum avistar o Teiú (Salvator merianae) estendido sobre pedras ou troncos, absorvendo o calor do sol como se tentasse carregar uma bateria interna. Como quase todos os répteis, ele é um ectotérmico: depende do ambiente para regular sua temperatura. No entanto, algo diferente acontece na busca por um parceiro "amoroso". 📱 Receba conteúdos do Terra da Gente também no WhatsApp Sob a terra, no silêncio de suas tocas escuras, o maior lagarto do Brasil guarda um segredo metabólico desvendado pela ciência em Jaboticabal (SP). Pesquisadores da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Unesp (FCAV-UNESP), apoiados pela FAPESP, descobriram o mecanismo exato que permite ao Teiú elevar sua própria temperatura corporal durante a temporada de reprodução. O fenômeno ocorre mesmo no interior de tocas geladas e sem luz, desafiando a lógica biológica de que apenas aves e mamíferos seriam capazes de gerar calor interno de forma constante. Veja mais notícias do Terra da Gente: VÍDEO: 'Saci' exibe 'asas falsas' em comportamento raro flagrado no litoral de SP INUSITADO: Reprodução explosiva de pererecas-grudentas impressiona no litoral do PR MOCÓ: Conheça o roedor 'alpinista' do Nordeste que é 100% brasileiro Estudo revela "poder" de aquecimento do teiú que desafia a biologia. arigrunfeld / iNaturalist O "fogo interno" das células A descoberta, publicada na revista científica Acta Physiologica, revela que o segredo não está no movimento, mas na química. Ao contrário das pítons asiáticas — as únicas outras representantes dos répteis que conseguem se aquecer através do tremor muscular (calafrios) —, o Teiú gera calor de forma silenciosa e imóvel. O grupo liderado pela professora Kênia Cardoso Bícego descobriu que, durante a primavera (época de acasalamento), os músculos do lagarto passam por uma transformação radical. As células musculares começam a produzir uma quantidade muito maior de mitocôndrias, as "usinas de energia" do corpo. O mistério do Teiú: cientistas de Jaboticabal descobrem como lagarto 'aquece o próprio sangue' ckirby-lambert / iNaturalist “De modo geral, apenas aves e mamíferos são considerados endotérmicos. Os répteis dependem de fontes externas. Esta é a primeira descrição em um lagarto de um mecanismo celular de geração de calor que se assemelha muito ao que acontece em aves e mamíferos”, explica Kênia Bícego à Agência Fapesp. A proteína do calor A pesquisa identificou que uma proteína específica chamada ANT, presente nas mitocôndrias, torna-se extremamente ativa no período reprodutivo. É ela a responsável por converter energia em calor nos músculos do animal. Curiosamente, esse mecanismo é idêntico ao encontrado em aves, enquanto mamíferos utilizam uma proteína diferente (UCP). O mistério do Teiú: cientistas de Jaboticabal descobrem como lagarto 'aquece o próprio sangue' gisibruhn/ iNaturalist Esse "aquecedor biológico" entra em ação num momento crucial: Nas fêmeas: auxilia na preparação para a postura dos ovos e construção do ninho. Nos machos: garante energia para a defesa de território e o aumento das gônadas para o acasalamento. Hormônios e evolução Para chegar a esses resultados, a equipe acompanhou dez lagartos durante três anos, realizando biópsias musculares no verão e na primavera. A investigação sugere que a "chave" que liga esse aquecedor são os hormônios sexuais (testosterona, estradiol e progesterona) e os hormônios da tireoide, que atingem o pico justamente na fase do amor. O mistério do Teiú: cientistas de Jaboticabal descobrem como lagarto 'aquece o próprio sangue' gabriel99455 / iNaturalist Além de fascinar entusiastas da natureza, o estudo joga luz sobre a própria história da vida na Terra. O fato de um lagarto subtropical possuir esse mecanismo sugere que a capacidade de gerar calor interno pode ter surgido nos vertebrados muito antes do que os cientistas estimavam. Como o Teiú possui um corpo robusto, o calor gerado internamente demora a se dissipar. Nas sombras da toca, enquanto o mundo lá fora esfria, ele permanece aquecido — um sobrevivente resiliente que carrega em seus músculos uma centelha de vida que a ciência, finalmente, conseguiu mapear. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente

FONTE: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/noticia/2026/02/07/por-que-o-teiu-fica-mais-quente-na-hora-da-paquera-pesquisa-encontra-dado-inedito.ghtml


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