Banheiros insuficientes e sujos, blocos gradeados e redução de furtos de celulares: o que deu certo e errado no carnaval de rua de SP em 2026

  • 25/02/2026
(Foto: Reprodução)
A cantora Daniela Mercury desfila com o bloco Pipoca da Rainha pela Rua da Consolação, na região central da capital paulista, no encerramento do carnaval 2026 em São Paulo. DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO CONTEÚDO Como resumir o carnaval de rua 2026 de São Paulo, vendido como "o maior carnaval do Brasil" pelo prefeito Ricardo Nunes? Blocos gradeados, superlotação, falta de banheiros químicos, mais segurança, policiais fantasiados e grandes atrações musicais. Cerca de 16,5 milhões de pessoas participaram dos oito dias de folia, com 627 blocos espalhados pela cidade — que vão desde os mega com Ivete Sangalo, Pabllo Vittar e Pedro Sampaio até os pequenos de bairro, segundo estimativa da prefeitura. Na percepção dos foliões, o carnaval deste ano foi mais seguro, reflexo disso aparece nos números: houve queda de 16% no número de roubo e furto de celulares. Como no ano passado, o policiamento também foi reforçado por agentes à paisana e fantasiados. Não é possível dizer o mesmo sobre a organização do carnaval de rua, que sofreu corte de R$ 12 milhões da prefeitura. O evento foi marcado pela superlotação e tumulto, em especial no bloco do DJ Calvin Harris, e redução do número de banheiros químicos. O g1 reuniu as reclamações e os elogios de foliões, representantes de blocos e da própria equipe de reportagem para mostrar o que deu certo e o que deu errado no carnaval de rua em 2026. Veja abaixo: O que deu certo Redução de furtos de celulares Grandes atrações Movimentação bilionária no turismo O que não deu certo Banheiros insuficientes e sujos Corte de orçamento Blocos gradeados Valor do fomento baixo Excesso de ambulantes Truculência policial O que deu certo Redução de furtos de celulares Policiais fantasiados de Minions prendem suspeitos de furto em bloco de SP A capital registrou 2.088 casos de roubo e furto de celulares entre os dias 13 e 17 de fevereiro, período do carnaval, segundo balanço da Secretaria da Segurança Pública (SSP). O número representa uma média de 17 aparelhos levados por hora. No Carnaval de 2025, realizado entre 28 de fevereiro e 4 de março, foram contabilizadas 2.506 ocorrências — uma redução de 16% neste ano na comparação com o ano passado. O levantamento considera todos os boletins registrados após o evento, incluindo aqueles feitos pela Delegacia Eletrônica, com prazo de até 48 horas para validação, de acordo com a pasta. Durante a folia, mais de 70 celulares foram recuperados com suspeitos e encaminhados às delegacias, responsáveis por identificar e acionar as vítimas para a devolução dos aparelhos. Ao todo, 94 pessoas foram presas nos blocos por crimes como furto, roubo e adulteração de bebidas. Grandes atrações Ivete Sangalo no carnaval de rua de SP Van Campos/AgNews Nos últimos anos, São Paulo se consolidou como um destino atrativo para curtir o carnaval no país, reunindo grandes atrações musicais nacionais e até internacionais, em blocos patrocinados. Neste ano, a rainha do axé, Ivete Sangalo, participou pela primeira vez da folia paulistana durante o pré-carnaval no circuito do Ibirapuera. Segundo a Polícia Militar, a cantora atraiu 1,2 milhão de foliões em sua estreia. Marcado pela diversidade de gênero, o carnaval ainda apresentou artistas que vão do pop ao sertanejo: Michel Teló, Pabllo Vittar, Léo Santana, Alceu Valença, BaianaSystem, Banda Eva, Luísa Sonza, Thiago Abravanel, Lauana Prado e Gustavo Mioto. Ao todo, a cidade contou com 11 circuitos de megablocos: Parque Ibirapuera, Avenida Brigadeiro Faria Lima, Avenida Hélio Pellegrino, Rua dos Pinheiros, Rua Henrique Schaumann, Avenida Marques de São Vicente, Laguna, Rua Paulo VI, Praça da República, Rua da Consolação e Rua Augusta. Movimentação bilionária no turismo A Federação de Hotéis e Restaurantes do Estado de São Paulo (Fhoresp) estima que o carnaval injetou R$ 3,2 bilhões no setor de Alimentação Fora do Lar e de R$ 567 milhões em Hospedagem, segundo o balanço parcial. Ao todo, os setores somam cerca de R$ 3,8 bilhões — cerca de 10% maior do que o registrado na mesma época em 2025. Questionada, a Prefeitura de São Paulo não respondeu sobre a movimentação financeira no setor de turismo até a última atualização da reportagem. O que não deu certo Banheiros insuficientes e sujos Foliões encontram banheiros inutilizáveis no Ibirapuera Nesta edição, a prefeitura reduziu a contratação de banheiros químicos de 24 mil para 16 mil diárias. A queda foi sentida pelo público que relatou longas filas. No bloco Solteiro Não Trai, do cantor sertanejo Gustavo Mioto, muitos foliões desistiram de encarar a fila e optaram por urinar nos tapumes que delimitam o circuito do Ibirapuera. Outra reclamação dos foliões e dos organizadores dos blocos foi a falta de limpeza dos banheiros, em especial nos megablocos. A equipe do g1, inclusive, flagrou os banheiros instalados no Ibirapuera com capacidade máxima de armazenamento de urina e, portanto, inutilizáveis durante o bloco Vou de Táxi, no pré-carnaval. Como resultado, o cheiro se espalhou pela região e podia ser sentido a muitos metros de distância. Procurada sobre a redução de banheiros, a prefeitura justificou que "realizou neste ano adequações na infraestrutura do Carnaval de Rua para otimizar a operação do evento, sem qualquer prejuízo ao padrão de excelência da festa". A administração municipal ainda informou que o preço dos banheiros neste ano diminuiu em relação a 2025. "O banheiro padrão era R$ 388 em 2025 e passou para R$ 272 este ano, enquanto o banheiro para pessoas com deficiência custava R$ 400 e passou para R$ 235". Corte de orçamento A prefeitura reduziu em R$ 12 milhões o orçamento destinado à estrutura e à organização do carnaval de rua de São Paulo deste ano. Em 2025, a prefeitura investiu R$ 42,5 milhões na infraestrutura do carnaval, com patrocínio de R$ 27,8 milhões da Ambev. Para 2026, o valor caiu para R$ 30,2 milhões — uma redução de 29%. Desde 2024, a SPTuris, empresa municipal de turismo e eventos, é responsável por toda a infraestrutura e produção do carnaval, incluindo a contratação de banheiros químicos, equipamentos, produção de material informativo, organização dos locais de desfile e sinalização dos circuitos. Questionada, a prefeitura disse que estava "projetada para atender integralmente, como em anos anteriores, a realização do maior Carnaval do Brasil, que neste ano registra recorde de blocos confirmados (627)". Blocos gradeados Superlotação em bloco com Calvin Harris causou confusão FELIPE MARQUES/ZIMEL PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO Estratégia já adotada pela prefeitura em outros anos, os gradis foram usados ao longo de trechos dos desfiles dos megablocos, criando corredores fechados para circulação e revista do público. Logo no pré-carnaval, a estreia do DJ escocês Calvin Harris no bloco Skol, na rua da Consolação, protagonizou cenas de superlotação e tumulto. Dezenas de pessoas, inclusive, precisaram ser socorridas após passarem mal. Em meio ao caos, os foliões tentavam buscar rotas de fuga, porém sem sucesso, já que o bloco era gradeado. Algumas pessoas chegaram a derrubar os gradis. A inscrição de novos blocos nos períodos do pré e pós-carnaval em 2026 é vetada, segundo o Guia de Regras e Orientações do Carnaval. Contudo, a administração abriu uma exceção para o bloco comandado por Calvin Harris. Tradicionalmente, o domingo de pré-carnaval na Rua da Consolação é reservado ao Acadêmicos do Baixo Augusta, que costuma atrair mais de 1 milhão de foliões. Em 2026, no entanto, o bloco teve de dividir o espaço com o Bloco Skol, com horários de concentração separados por apenas três horas. Para especialistas ouvidos pelo g1, o confinamento de grandes multidões em espaços estreitos, sem rotas laterais de escape, cria um cenário de risco mesmo sem violência. Eles também criticam a lógica de gestão baseada na contenção dos fluxos e o uso de gradis metálicos, considerados mais rígidos e perigosos do que os modelos plásticos. (Leia mais aqui.) Superlotação em bloco com Calvin Harris em SP provoca tumulto e foliões passam mal Valor do fomento baixo Neste ano, somente 100 dos 627 blocos inscritos foram selecionados para receber apoio financeiro de até R$ 25 mil cada um, totalizando R$ 2,5 milhões em recursos da gestão municipal. Segundo organizadores dos blocos de rua, ouvidos pelo g1, o valor do fomento é baixo, considerando as despesas com a infraestrutura e segurança. Um levantamento do g1 aponta que o custo médio para colocar um bloco de carnaval na rua em São Paulo pode variar de R$ 5 mil a mais de R$ 700 mil, dependendo do tipo de bloco, do tamanho do público e da estrutura necessária para desfilar com segurança. Para viabilizar os desfiles, muitos blocos precisam promover festas pagas e correr atrás de patrocinadores ao longo do ano. De acordo com Thais Haliski, do bloco Acadêmicos da Cerca Frango, essa lógica tem transformado o carnaval em um negócio obrigatório, com impacto direto na identidade dos blocos. Durante a coletiva de anúncio da estrutura do evento, Ricardo Nunes afirmou que os organizadores de blocos de rua precisam buscar patrocínio próprio e não depender apenas de recursos da administração municipal. Contudo, os organizadores de blocos tradicionais da cidade afirmam que a concorrência com os megablocos de cantores renomados, como o da Ivete Sangalo, dificulta a obtenção de patrocínio. Excesso de ambulantes Ambulantes enfrentam condições precárias no Ibirapuera para conseguir lugar em megablocos Quinze mil vendedores ambulantes se cadastraram para trabalhar no carnaval de rua em São Paulo nesta edição. Um dos circuitos mais disputados pelos trabalhadores foi o do Ibirapuera, por reunir grandes atrações. Para garantir entrada no circuito, ambulantes montaram acampamentos nas proximidades do Parque do Ibirapuera. Oficialmente, não há limite de entrada de vendedores por bloco, porém com a superlotação alguns correram o risco de ficar de fora. Segundo relatos de ambulantes ao g1, eles precisaram dormir no chão e com apenas quatro banheiros químicos para dividir no acampamento improvisado. Trabalhadores ainda contaram que uma área foi disponibilizada pela prefeitura após confusões e denúncias de venda de vagas na fila do lado de fora. Dias antes da festa começar, centenas de pessoas já ocupavam as calçadas em frente aos portões para tentar garantir um lugar nos concorridos megablocos. Truculência policial PMs espancam homem após megabloco no Ibirapuera Um vídeo registrado no circuito do Ibirapuera, em 17 de fevereiro, flagrou um grupo de policiais militares agredindo um homem violentamente. Ele é cadete do Exército e foi abordado após assediar mulheres durante megabloco, segundo boletim de ocorrência. (Veja acima.) A cena mais violenta mostra um PM aplicando um mata-leão no homem até ele desmaiar, enquanto outros policiais seguram os seus braços e pernas e o golpeiam na barriga. As imagens mostram que ao menos cinco agentes se envolveram diretamente nas agressões. A agressão só terminou após o estrangulamento, quando o homem caiu no chão e foi algemado. Em nota, a SSP informou que "não compactua com excessos" e que tomou conhecimento de que um homem, integrante das Forças Armadas, foi detido após "desacatar e agredir" PMs que faziam patrulhamento. Outra cena de violência durante o carnaval foi promovida pela Guarda Civil Metropolitana (GCM). Agentes usaram bombas de gás lacrimogênio e spray de pimenta contra foliões após a dispersão do bloco Vai Quem Qué, no Butantã. Segundo integrantes do grupo, uma funcionária da prefeitura, da área de zeladoria, que realizava a varrição após o cortejo, chegou a desmaiar por causa do gás. Um membro do bloco também foi agredido pelos guardas. Procurada, a Secretaria Municipal de Segurança Urbana afirmou, em nota, que "houve resistência pontual e arremesso de objetos contra a equipe". A pasta ainda informou que dois agentes ficaram feridos e foram levados para o Hospital Rio Pequeno. GCM usa spray de pimenta e gás lacrimogênio para dispersar bloco no Butantã

FONTE: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/carnaval/2026/noticia/2026/02/25/banheiros-insuficientes-e-sujos-blocos-gradeados-e-reducao-de-furtos-de-celulares-o-que-deu-certo-e-errado-no-carnaval-de-rua-de-sp-em-2026.ghtml


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